Cansado de um longo dia de lamentações, fantasias e danças loucas, olho para mim e apercebo-me.
Não tenho.
Não sou.
Não vivo.
Ao caminhar sobre a linha de ferro no descampado das minhas memórias encontro apenas a continuação da mesma. As luzes do metro são sempre as mesmas. As mulheres também. As portas abrem-se ostensivamente numa elegância esfumada para eu poder entrar, e quando dou por mim, morro de tanto olhar para cima. Não é um lugar para mim, nem nenhum o parece ser.
Isto passa-me pela cabeça enquanto vagueio pelo caminho-de-ferro emoldurado por tábuas velhas, todas paralelas, todas a atravessar as linhas e que, desafiando-as, mas prendendo a sua verticalidade, são outro dos seus membros. Uma união de um triângulo com um rectângulo - desconfortável, mas inevitável e hipnotizante. Um dia hei de pintar isso, se A Lança Raiante quiser.
Caminho até ver um verde. Um verde arqueado por cima e seguro por pilares rectos com rodas e metais por baixo, e uma pequena porta no meio. A Carruagem Abandonada desfila na avidez do meu olhar só, apoderando-se da paisagem. Serpente cada vez maior até se estender à frente no lugar outrora preenchido por um maquinista e por cuja janela-guia só se avista uma árvore desfolhada por algum Inverno imperceptível, deixa de ser majestosa a sua figura. Passa a ser beata, destituída por dentro. É com enorme desconforto que almejo o lado de fora pelos buracos das paredes de madeiras quebradas.
Encontrar o Corpo a Mente e o Lugar Comum e a Neurose e o Questionar e o Andar e o Ver e o Amanhecer e o Apodrecer e o Ruminar....
São tudo coisas ocas. Que mais poderia o sentimento ser para além de um escudo contra a adversidade do Oco? Pois o sentimento é Oco. Justamente, cria um casulo à sua volta para não o vermos, de forma a que não queiramos arrancar os olhos para não ver e assim assimilarmo-nos na tareia corrente que é o rimbombar das ondas, a umas centenas de metros daqui.