segunda-feira, 16 de maio de 2011

Porta do vácuo

Cansado de um longo dia de lamentações, fantasias e danças loucas, olho para mim e apercebo-me.


Não tenho.

Não sou.

Não vivo.

Ao caminhar sobre a linha de ferro no descampado das minhas memórias encontro apenas a continuação da mesma. As luzes do metro são sempre as mesmas. As mulheres também. As portas abrem-se ostensivamente numa elegância esfumada para eu poder entrar, e quando dou por mim, morro de tanto olhar para cima. Não é um lugar para mim, nem nenhum o parece ser.
Isto passa-me pela cabeça enquanto vagueio pelo caminho-de-ferro emoldurado por tábuas velhas, todas paralelas, todas a atravessar as linhas e que, desafiando-as, mas prendendo a sua verticalidade, são outro dos seus membros. Uma união de um triângulo com um rectângulo - desconfortável, mas inevitável e hipnotizante. Um dia hei de pintar isso, se A Lança Raiante quiser.

Caminho até ver um verde. Um verde arqueado por cima e seguro por pilares rectos com rodas e metais por baixo, e uma pequena porta no meio. A Carruagem Abandonada desfila na avidez do meu olhar só, apoderando-se da paisagem. Serpente cada vez maior até se estender à frente no lugar outrora preenchido por um maquinista e por cuja janela-guia só se avista uma árvore desfolhada por algum Inverno imperceptível, deixa de ser majestosa a sua figura. Passa a ser beata, destituída por dentro. É com enorme desconforto que almejo o lado de fora pelos buracos das paredes de madeiras quebradas.

Encontrar o Corpo a Mente e o Lugar Comum e a Neurose e o Questionar e o Andar e o Ver e o Amanhecer e o Apodrecer e o Ruminar....
São tudo coisas ocas. Que mais poderia o sentimento ser para além de um escudo contra a adversidade do Oco? Pois o sentimento é Oco. Justamente, cria um casulo à sua volta para não o vermos, de forma a que não queiramos arrancar os olhos para não ver e assim assimilarmo-nos na tareia corrente que é o rimbombar das ondas, a umas centenas de metros daqui.

3 comentários:

  1. Estou boquiaberta. Que texto tão sinestético, que pedragulho que nos afunda - leitores, entenda-se -, que abismo para uma amiga que te sabe.
    'Que mais poderia o sentimento ser para além de um escudo contra a adversidade do Oco?' O entretenimento do tempo.

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  2. estou a escrever num sorriso transbordante de serotonina que se desvanece enquanto me apercebo dele, e a minha cabeça volta a assentar na coluna nojenta que a suporta------->did it again! :)
    Nao mas foi mesmo isto que aconteceu. Bem, poderia ser...mas o tempo é uma membrana do Oco em si mesmo, nao?

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  3. E dou a mão à palmatória. Sem outra hipótese.

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