quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Uma posta de pescada

E mesmo na cara do destino rimo-nos dele
Como se a máscara grega fosse verdade
E as míseras veias da vaidade
Desaparecessem em suduríperas asneiras
Nas dores pálidas e suaves da piedade

Que não quer mais a nossa língua
Que atingir o infinito nas lareiras
E ao desaparecer no ninho derramasse
As mágoas coaguladas nos montes, nas barreiras
E ao corroerem, as lágrimas se fundissem em tais muros
Choros mártires, desmontados, descalçados e duros.
E desmontassem buracos das beiras.

Encontrei;
A magia é uma dor.
Achava que me safava.
Achava que era calor.
Olhei no espelho a figura que fazia.
Não existem as mágoas existe a dor
Existe a merda existe a tusa
Existe a mórbida essência, o amor.

Plenitude que não é mais que prata
Solidão que não é mais que ardor
Num peito idiota apodrece esquálida
A vida eterna do desejo matador.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Sancta Maria

Isto não me sai da cabeça.

Assim, decidi escrever qualquer coisa que, penetrando na sombra deste pensamento e cortando-o, como uma quilha de um casco branco corta a corrente, me fizesse, magicamente, transformar o mar e o céu cinzento na realidade que me rodeia outra vez, com o sangue afluindo à cabeça furioso, para depois descair, mais uma vez aparece a curvatura óssea.






A frieza assombrosa, perfumada por uma escuridão reconfortante, invade as vias respiratórias de quem se atreve a entrar na igreja.

Ouvem-se passos. Um vulto negro percorre o chão de mármore, retido, retinido, absorvido e absorvente.

O Padre move-se em direcção ao altar e contempla a taça sobre a tábua de madeira a que chamam mesa, e a que ele chama a Pedra Basilar; está escuro. pega na garrafa de vinho e deita-a sobre o metal frio do cálice de onde irá beber o calor, algum calor que ao menos pudesse existir na sua alma. Assim, acende as velas, que lançam uma auréola de luz sobre a catedral, um escape estranho na calma de pedra que se instalara até então.

Como se estivesse num sonho, cambaleia sobre as escadas e desce até ao claustro. Dentro já de uma luz eléctrica, que percorre a sala até abranger os velhos quadros barrocos, puxa um cigarro e acende-o, numa contracção de culpa que lhe abafa o espírito. Ainda assim, leva a ponta redonda aos lábios e faz recuar a linha vermelha sobre as cinzas.

Porquê a conturbação? Havia tido dias piores...o céu estava azul, as casas eram rosas, cada sorriso, se não era uma flor, era uma constelação..

Dominus Tecum...

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Porta do vácuo

Cansado de um longo dia de lamentações, fantasias e danças loucas, olho para mim e apercebo-me.


Não tenho.

Não sou.

Não vivo.

Ao caminhar sobre a linha de ferro no descampado das minhas memórias encontro apenas a continuação da mesma. As luzes do metro são sempre as mesmas. As mulheres também. As portas abrem-se ostensivamente numa elegância esfumada para eu poder entrar, e quando dou por mim, morro de tanto olhar para cima. Não é um lugar para mim, nem nenhum o parece ser.
Isto passa-me pela cabeça enquanto vagueio pelo caminho-de-ferro emoldurado por tábuas velhas, todas paralelas, todas a atravessar as linhas e que, desafiando-as, mas prendendo a sua verticalidade, são outro dos seus membros. Uma união de um triângulo com um rectângulo - desconfortável, mas inevitável e hipnotizante. Um dia hei de pintar isso, se A Lança Raiante quiser.

Caminho até ver um verde. Um verde arqueado por cima e seguro por pilares rectos com rodas e metais por baixo, e uma pequena porta no meio. A Carruagem Abandonada desfila na avidez do meu olhar só, apoderando-se da paisagem. Serpente cada vez maior até se estender à frente no lugar outrora preenchido por um maquinista e por cuja janela-guia só se avista uma árvore desfolhada por algum Inverno imperceptível, deixa de ser majestosa a sua figura. Passa a ser beata, destituída por dentro. É com enorme desconforto que almejo o lado de fora pelos buracos das paredes de madeiras quebradas.

Encontrar o Corpo a Mente e o Lugar Comum e a Neurose e o Questionar e o Andar e o Ver e o Amanhecer e o Apodrecer e o Ruminar....
São tudo coisas ocas. Que mais poderia o sentimento ser para além de um escudo contra a adversidade do Oco? Pois o sentimento é Oco. Justamente, cria um casulo à sua volta para não o vermos, de forma a que não queiramos arrancar os olhos para não ver e assim assimilarmo-nos na tareia corrente que é o rimbombar das ondas, a umas centenas de metros daqui.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Sala de manicómio (prosa)

Ainda consigo ver uma boca gritante

Nos resquícios de uma memória perdida

Ergue-se aberta e distendida

Emite um grunhido circundante












Mas porque raio de razão é que estou a escrever num blog?
A minha vida resume-se a imagens fugazes e pensamentos enrolados em teias, cada um mais pálido que o seguinte, mesmo que na sua falsidade transpareçam, através do vidro ou outra qualquer camada de matéria absurda na minha mente, laivos de calor. A minha boca já não existe.

O meu corpo já não existe.

Sou o quê?

Quando olho para baixo, só vejo um enorme poço. Estou na curva que se atreve a contorná-lo, e curvo-me numa vénia que mais uma vez se parece apagar numa banalidade de "não-existência". Vai-te lixar, para não dizer outra coisa, mas não vás - ESFUMA-TE, desfaz-te numa bola salivar! Corre e estilhaça-te nesta ilusão de atmosfera! Respira até te dissolveres e gerares nada e depois uma qualquer primavera elaborada. Pega nos objectos quotidianos e leva-os contigo para lá. Onde eu não te possa nem mais ver, e que em estilhaços chores à vontade mas longe da minha vista que não mais suporto o teu gemer. Pareces uma maçaneta estragada, não serves para nada, rais ta parta os muros da minha vida que mandaste erguer, agora esbarro contra eles não vejo mais nada à frente rema rumo à voz ausente loucura em turbilhão confusão confusão corro pelas ruas abruptamente num gesto de ansiedade a tremer a tremer a tremer e sou devoto a uma falsa imagem do deus que só desespero para reconhecEEEEEEEEEEr e manda e troca o passo acelero a fala reentrei no espaço devora faz grita rói dura mole o que quer rasgar em molde fazer história soldadinho dedinho pronunciado a meu ver e raio partido num vaso quebrado sabor amargo ao estarrecer na manhã dura pranto brave e oca que me mandou






esquecer?





RRRRRRRRRRRRama  de um sentimento maior

gostaria de racionalizar.

Olhe, e é mais uma megalomania, fachavor, ta bem? Brigado.


A partir daqui, chamas amarelas imponentes.



E saí do negro onde me encontrava só para enfrentar isto?

Que merda que eu fui arranjar.

Quem me dera não saber.

A felicidade nunca posso aliviar.

(e com uma faca envolvida pela minha língua, penso da minha base fina e instável)

A minha vida é uma doença incurável.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Aspereza

Agulhas de roseira que pisam os teus lábios molhados
O estrambelhar da corte a exibir os artifícios prateados
  de correntes secas e circundantes
  metálicos sons de pequenos sinos distantes

Cheira a suor; vê-se a plenitude de cinzento no ar;
sente-se consciência azul e deprimente
Em vara preta e brincalhona, move-se quente
E agita o doce líquido de azul mar.

Vejo a grandeza de cima
Quando a tento agarrar, foge-me das mãos
escorrega-me docemente dos meus dedos esguios
Desliza de novo para os seus lugares, para os seus ternos medos frios,
E não quer saber de fábulas, nem de brutos esforços vãos.

Punhal diagonal que se ergue
projecta uma sombra na roda em parede branca
Será que cede, será que canta?
não penso que mate, penso que arranca
A uma musa esguia o coração.

É um canto de sereia que me encanta
E me leva estável e decidido
Para a frente de um discutível castigo
Espera: afinal é noção
É lunática batalha, vermelha paixão
Indecisa lareira, alento aquoso de mineral solidão.

E observo ainda largamente
Num silêncio cavernoso e sorridente
Este nosso mundo, tão sólido e latente
História muda matizada de amarelo em radiação

Pois mexem-se as máscaras neste teatro, nesta ilusão
E não param o espectáculo até que a hora final chegue
Que a Sombra os cubra de escuridão
E envolva num manto até que reste apenas





Escuridão pulsante,

lustro de pó

E penas.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Que hei de fazer a esta mão?

Que hei de fazer a esta mão que se ergue?

dedilha o fumo brando, saboreia o branco, avista o azul e o vazio


Baila no ar sentindo
o bafiento chamar do dourado cantar
Pássaro brilhante e lunar
Desprovido de pousio.


é um antebraço pálido
Mão esquálida
Esta inconstância descrita a bater nos ouvidos e nas narinas de arrastão.


vermelhos brilham os capilares à luz
Ver o mundo em laranja, cansativa coloração
Através desta pele, destas cores
De tamanha e rósea paixão


Ah como odeio o mundo e toda a gente

Já diria o Verde - nem os posso ter mais bizarros!

Fazem debates pintam quadros
Dançam energicamente
O que são eles?
Cadáveres adiados
Já não suporto ver esta gente
Cansam-me as falas, os maus-olhados
Irritam-me os berrantes telhados
Acima da sua consciência
E o pior é que sou um deles!

Desconforto

Que é isto?

É grunhido sonoro que se desenrola constante,
vomitado inconsciente da mente diversa e rastejante,
 matreiro fácil,
 inútil roupeiro,
 focinho de cão,
  animal solteiro.

É exibicionismo material ornamentado,
consumismo individual mentalmente atordoado,
sentido de realidade obstruído,
sentimento de matagal instruído.

Pareceriam arder estas percepções
Mas só ao longe,com deturpadas, turvas limtações.


Entra o estrangeiro batente
Aborreço o leitor que se cansa
Parece que não tenho uma arte que alcança
Tal baluarte estendido e sereno.

E desorienta-se disperso
Numa verdejante pretensão
Aquele brilhante Sol nascente
vívido e ameno.

Perde-se a minha orientação
Apagam-se os meus segredos
não consigo sair desta quadra, desta maldição
Parecem-me lamacentos os penedos.

Já começo a lentificar.
Os meus versos perdem força
Porque nunca existiram.
Espero um dia conseguir ficar
desperto numa quente displasia,
palavras que me dou ao trabalho de inventar
 so falo em eu, eu eu em demasia.

Mas não saio dos meus limites
impostos por esta falsa folia
comprimido mal passado
Gargântua pálida que prende o dia

Porque não saio daqui?
Porque não vejo a luz desse ranhoso dia?
Toda a gente tem um herói...
Eu questiono-o sem cessar e segundo o escrito da arritmia...


Mato-o por dentro
Estrangulo como raivoso cão
Almejo-o a  morrer, pálida pele fria
Choques de prazer em moribunda razão.